15.9.14

Selva dos dias

Ir às compras para o jantar depois de um dia de trabalho cruel. A rapariga da caixa indagar o porquê da minha cara parecer ter sido esmagada por um camião-cisterna na pior curva da estrada. Carregar as traquitanas alimentares como quem carrega chumbo. Subir mais lanços de escada para chegar até casa do que me lembro de ter descido para sair de manhã. Chegar a casa e a casa continuar a pedir-nos mais trabalho. Acomodar os pertences alimentares em seus lugares. Lavar loiça. Preparar o jantar e o almoço de amanhã. Gerir a orquestra do fogão como um surdo gere uma ausência de sinfonia. Mudar a areia dos gatos. Dar de comer aos gatos. Tratar da roupa. Fazer a cama. Arrumar coisas. Arrumar tantas coisas mais do aquelas de que me lembro existirem em casa quando saí de manhã. Lavar mais loiça. Tratar do lixo. Tratar de tanto lixo que parece que vivo em regime industrial. Regar as plantas aromáticas, embora metade delas estejam mais secas do que a boca de um morto. Sentar-me finalmente aqui. Sentar-me tanto que julgo ter nascido sentada num poltrona funda e bulbar. Continuar a pesquisar umas coisas para o trabalho. Pesquisar tanto que os resultados são sempre «zero resultados encontrados». Reparar que anoiteceu de tal maneira que os gatos tombaram num sono tão pesado quanto os sapatos já no chão depois de me terem tiranizado os pés o dia todo. Parar por um momento. Parar tanto que não sinto nada. Só depois deste sopro de me ter ido embora daqui no vapor da inexistência é que vêm, lentamente, pequeninas ideias à mente, numa valsinha cambada e aleatória. Oiço-as como quem ouve coisas e não quer. Quero descalçar-me delas também, mas elas não deixam. Lembram-me de frases drenadas no meio do disperso. Lembram-me de reconhecer este trabalho silencioso que a vida nos impõe. Que ninguém agradece. Lembram-me de saber que na lei da selva dos dias mais do que a sobrevivência do corpo é a sobrevivência das almas que está em jogo, que arriscamos ao aproximarmo-nos dos lagos para beber água. Lembram-me cada um dos nossos rostos neste debate com a selva. Lembram-me de amar este esforço miúdinho de fazer coisas para nos mantermos vivos. Lembram-me que sem isso não poderíamos levantar a consciência disto para o que está no meio de nós, para quem está no meio de nós, para nós mesmos e como esta força silenciosa, irreconhecida, é porramente bela.

9.9.14

O artista e a sua imagem

Num mundo em que a imagem sobrepesa, em que a idolatria desceu dos deuses para os homens, a grande força a ter-se é a da sua recusa. Parece-me que temos chegado ao limite das mais distantes fronteiras a que a arte leva o seu criador: o da exposição do homem acima da exposição da obra. Não deveria existir uma relação de implicação no fazer-se a obra e no expor-se o artista por ela, ao ponto da obra ficar para segundo plano ou, melhor, transformar-se em sobra do indíviduo. A arte é a linguagem daqueles que partem da observação e do recolhimento e, portanto, deixarem-se em tal ordem a descoberto, à mercê da idolatria, é arriscarem-se a perder esse lugar essencial para a criação: o silêncio necessário que circunda todo o grande autor.

26.5.14

PROBLEMAS EM HISTÓRIA #3

História

História. A História não é rolos de papiro,
pergaminhos esboroados,
nem estátuas de mármore em pedestais.
A História está gravada no coração dos homens,
na esperança, na memória,
nas revoluções, nas revoltas,
nas paradas dos heréticos,
na verdade dos lunáticos,
nas traições,
triunfos, cadafalsos, coroas,
campos de concentração,
na marca do jagunço.
Tudo isto pode ser encontrado
no pequeno e infinito coração dos homens, –
escrevinhado, escondido, acorrentado, –
agitando-se na palma da tua mão,
o coração
que neste preciso momento
passa entre nós despercebido.
História. A História
é como música,
como o redobrar dos sinos
na capela de Vílnius.

Janina Degutytė (Lituânia, 1928-1990)
(versão/tradução AS)


23.5.14

Resposta tardia #2

Já que avancei com a anterior resposta ao putativo jornalista, acabo por responder também a outro assunto que na altura me incomodou, era para ter respondido, mas acabei por considerar que era escusado. Por um lado, não gosto deste tipo de polémicas vazias (apesar de parecer que tenho um íman que as atrai, fdx); por outro lado, tenho mais o que fazer. 

Seja como for, refiro-me a uma crítica à revista de poesia golpe d'asa n.º 1, feita pelo Manuel de Freitas, na cão celeste n.º 2. Tem direito à sua opinião, tem direito a não gostar, o que é triste é vê-lo a fazer uma crítica como quem dá um golpezinho baixo, beneficiando de ser um tipo com imensos anos nestas lides para tentar fazer um knockout público a um projecto que estava a dar os seus primeiros passos e é feito com amor e seriedade. O que vale é que as pessoas não são parvas e por elas próprias hão-de fazer os seus juízos, uma opinião vale o que vale. Mas esperava mais, achei injusto e precipitado. 

Seja como for, continuo a sublinhar que o MF teve e tem uma importante acção no campo da edição de poesia, juntamente com a Inês Dias, a par de não assim tantas outras pessoas que noutras casas editoriais ainda se dedicam a algo que está fadado a ser, por natureza, um não-negócio: onde o principal lucro (ou talvez até o único lucro) é o amor e a dedicação à causa literária e poética. 

E acho bonito que estejam recentemente a nascer pequeníssimas editoras que, do próprio bolso dos editores, vão fazendo o seu trabalho de recolha do que se vai escrevendo, criando novos catálogos, promovendo a tradução também (que é fulcral!). 

Ao contrário de outras pessoas, acho muito bem que se publique tudo, se assim for desejo de autor e editora e houver recursos, nem que seja uns tostões nos bolsos, para isso. 

Como diz o sr. Manuel Maneira, que tem 1 héctar de horta na Escusa, Marvão (a horta-poema): o que importa é a variedade. O leitor comerá o que entender, o tempo devorará o que tiver de devorar.

22.5.14

Durante o estudo


O meu trabalho é ali, sobre a mesa
quando me aproximo até ao sentido
das coisas amadas que me cercam:
o calor da pele, ao simples contacto
do ar, atira-me em palavras ao tapete
numa harmonia de luz e contrastes.

Penso que o mundo claro do meu quarto,
detido na sua marcha com o dia,
se esqueceu de ser algo na terra,
então abre um caminho alegre
e desprende-se
para um céu entre paredes.

Sol Acín (1925-1998)
En ese cielo oscuro (1979)
(versão/tradução AS)



 

PROBLEMAS EM HISTÓRIA #2

Ensina Grande História (Big History) e é um dos cientistas que mais têm contribuído para divulgar esta nova disciplina. Quer resumir o que é a Grande História e quais são as principais vantagens da abordagem que ela propõe?
No mundo académico, as disciplinas estão muito separadas umas das outras: as pessoas dos departamentos de paleontologia e astronomia não têm nada a dizer umas às outras, e as que estudam a história da espécie humana não têm nada a dizer nem a umas nem a outras. Achámos que era uma pena e foi assim que surgiu a ideia da Grande História, cujo objectivo é pensar tudo o que aconteceu no passado, desde o início do tempo, e criar uma história coerente, quebrando barreiras entre disciplinas.

Walter Alvarez

 Excerto da entrevista.

Homossem

A noite vinha com umas mãos curvas de milagre
eram mãos tuas eram mãos minhas curvas de milagre
tu eras um holofote azul de dirigires alucinações
de prazer cor-de-rosa
tu eras uma flutuação constante de penumbra e surpresa
era um corpo de admiração e sublime
eras garbo da tua idade já nocturna para o pecado
tinhas uma mão que fazia regressar o espaço
por onde puxavas o amor
eras um corpo suave de admiração e sublime
um requinte de trazeres intenções pelo fato
tinhas um casaco especial de convidar uma visita
uma surpresa emancipava-te a vontade do queixo
não esqueço uma tua boca de construção de virtudes
porque beijavas onde o símbolo requeria
havia-te casa pelo convite da mão
eu sabia que a tua palma tinha um rio que fazia estalar
o medo
era a sedução de tu meditares longamente sobre quem te fosse
mais próximo
e nascia um horizonte duma maneira do teu olhar
Fazias o espaço ser-te magia de convite
convidavas uma semente de ir lá
porque não se falava no que se ia saber
nós tínhamos um conforto de destino próximo e azul
que era a manhã de tu fazeres desaparecer o medo do rio
Não íamos quebrar fauna pelos bosques
íamos sair ao concreto do tempo
por onde tu erigisses catedrais de
inauguração sentimental
Era um amor que tinhas
era inauguração dum desejo
o medo do rio que tinha uma manhã por dentro
era tudo tão diferente e admirado de nós
a maneira das coisas nos olharem por cima do dia
como o que fosse diferente de imaginar
Nada acontecia
Tu eras um holofote azul de construíres
alucinações de meio-dia cor-de-rosa.

António Gancho 
O ar da manhã