19.12.14

Com o apocalipse, começaram os astronautas a varrer as ruas da cidade,
a recolher o lixo doméstico (pouco, dada a escassez de comida, dada a escassez de gente),
conduzindo com a leveza dos fantasmas os camiões verdes até aos aterros
e deles de novo às cidades como um vaivém à lua pela noite escura.
Uma parte da população mudou-se de imediato para esses aterros.
Viviam entre os escombros dos carros (que de pouco ou nada serviam, dada a escassez de combustíveis).
Quando apanhavam algum resto de gasolina, bebiam-na e incendiavam-se.
Contavam histórias uns aos outros envolvidos por fogueiras, quando não se matavam,
para não terem de lidar com a tristeza ou a mórbida alegria de as ouvirem.
Um casal de cães fazia o último dia do amor nalgum buraco ao lado das turbinas.
As fábricas vomitavam para dentro os plásticos da solidão urbana.
Os livros ensinavam línguas de países perdidos àqueles que ainda tinham esperança e um pouco de pão.
E junto às grandes ondas escuras pessoas abriam os olhos pela última vez.
Um grande esquema repressor de mãos bombardeava o que ainda se aguentava de pé,
porque o que de pé estava fazia demasiada sombra às ruínas.
Minha estrela lá no céu
para quem mil olhos já brilharam
fica sabendo que a minha vida já se fodeu
e continua a brilhar impávida.
Meu pavio de uma cor só
a cor do fogo sombrio
vem depressa adormecer a meu lado
mesmo que provoques um incêndio
mesmo que provoques um silêncio
dorme e queima-me as mãos.
Minha forma geométrica de papel
minha cama recortada na galáxia
vem com os teus cinco punhais
e cura-me deste nada.
Ladainha da minha infância
meu bem a quem foi apontado tantos males
de o meu dedo nasceu o princípio da escuridão
ainda criança.
Meu peluche de brincar a sério
a quem pedi o que nunca pude ter
vem ver-me ao cume do castelo
contra mouros e cristãos morrer.
Estrela frenética que a manhã encobre
correria de um mundo tão global
embrulha-me num manto de fogo
afaga-me a cabeça com tuas chamas.
Tu que és um selo lambido pela dor
de o homem ser tão pequeno
encima-me e rebaixa-me
rapta-me para o vácuo da explosão.
Lembrar-me-ei de ti na terra grave
tão angulosa a comer-me as mãos
e os sonhos que nelas mantive cativos
sem saber como os escrever
quanto mais como vivê-los.
Vive-os tu por mim e estilhaça-os
em farinha de luz por muitos anos
e aqueles que não me amaram
ficarão com um consolo sem saber
que sou eu que estou a banhá-los.
Estrela minha que brilhas
nesta noite descoroçoada 
nas cordas que acobardam alguma canção
que devia ter sido tocada
toca-me tu antes no cimo da nuca
e abre-me um espaço até ao pulmão
por onde um comboio passe
e una o que não foi nada.

18.12.14

Adia o olhar e pousa-o num lugar onde brinquem crianças ou passem carros,
onde os pombos devorem à noite o seu sol de milho, deixado lá pela bondade
de algum louco (um deles chamado Nazareth) ou de silhuetas negras vindas da igreja.
Deixa os teus olhos verdes para novos lugares onde as flores que a terra dá,
e não vende, venham rompendo das águas, à procura de ângulos na luz,
à procura da seiva que fauna e flora partilham desde a antiguidade.
Ouve os teus avós, que punham aquela colherzinha extra de açúcar nas mãos:
«Espera pêra na pereira». O néctar é como os mantos freáticos, alimentado das nascentes,
correndo na carne da fruta que tu és e que poucos olhos vêem e que menos bocas beberão.
A água não apodrece. A água, se espera, converte-se em lagos. Nada temas.
Se precisares, pede ajuda aos cegos para que te indiquem o caminho.
Eles saberão em que lugar da esplanada hás-de esperar
pela mão do tempo que nos colhe e come ensandecidamente
até sermos só de novo caroços na terra, sombras de frutos,
escalando outra vez as árvores até à incidência da vida,
repetidamente, como um baloiço sandeu na ramagem, preso a cordas. Às vezes, só por um fio.
Mas todos chegaremos à enxertia e acabaremos na languidez dos ramos mais finos.
Todos nós seremos tocados pelos vermes e pelos pássaros da nossa fome.
«Espera pêra na pereira», borda as cerejas na toalha branca que havia sobre as terras baixas,
ouve os teus avós ardendo nas lareiras,
e pede do teu país apenas esta língua com que te possas calar,
porque a espera é mais sentida se for em paragens de silêncio,
com os olhos nas mãos como radiografias de montanhas.

15.12.14

Há muito tempo que uma lágrima esperava pelo seu dia de nascer. Esperava pelo momento certo de seguir o seu caminho. Não era nem triste nem alegre. Era uma lágrima de certeza e desceu dos meus olhos por um rosto diferente até ficar suspensa no silêncio deste inverno. Hoje sou a louca dos cabelos curtos que vagueia nos corredores da indiferença do mundo. Com os seus lençóis brancos presos ao corpo, presa a uma certeza inútil e vaga no meio do caos. Sabemos que a certeza de uns é a loucura, uma espécie de loucura profética, para outros. E não terá sempre a profecia um princípio de loucura? Não me importo de ser a louca profética, que se ajoelhou, de pé, perante o inaceitável.  Não me importo que seja essa árvore onde os pássaros armam campos de batalha numa música difícil, junto ao cais (tenho a certeza de que não fui a única a reparar nessa árvore) ou uma fuga para um adeus, uma proscrita embrulhada em papel químico, embarcada na cegueira para a mudez. Não importa mais. Já não importa quase nada e os loucos são, afinal, os únicos que sabem amar os objectos e os filhos do vento. E talvez assim seja o mais certo. Não possuir mais nada, não haver mais espoliações.

13.12.14

12.12.14

Mais não seja porque somos as nossas maiores armadilhas, caíremos sempre, por mais plano ou tortuoso que seja o caminho. Não nos vemos a nós próprios, a não ser com os olhos de dentro. Somos todos cegos quando nos dirigimos ao outro e dizemos eu como quem começa uma longa história. Andamos sobre a escuridão dos outros. E se erramos, foi apenas porque quisemos encontrar. Se no limite só havia pedras, foi apenas porque quisemos o encontro. Dizem-nos que «o erro é a noite dos espíritos» (com malícia) ou «só os grandes homens erram» (impondo exemplos de inspiração). Erramos todos, pequenos ou grandes. Maior é a noite daquele que se defende do erro, que nunca caminha para os outros à procura. Só os que caminham poderão encontrar. Só os que caem sabem que a luz pode vir do chão e ferir como uma pedra.