2.3.15

Arder livremente

«[...] Podia talvez dizer-se que a alma de Ágata procurava uma outra possibilidade de arder livremente. Era hábito, no princípio destas conversas, ela fazer uma perguntaa exacta e pessoal cuja forma interior seria: «Tenho ou não o direito?». A anarquia da sua natureza revestira-se sempre da forma triste e cansada desta convicção: «Tenho o direito de fazer tudo mas não há nada que eu queira fazer». Por isso as perguntas da irmã causavam por vezes a Ulrich, compreensivelmente, um sentimento análogo ao que nos provocam as perguntas das crianças, tão quentes como as mãozinhas destes seres indefesos».

Robert Musil
O Homem Sem Qualidades, vol. III

A precipitação (das coisas/seres que se lançam uns sobre os outros)

«É evidente que os condutores não lançam propositadamente os comboios uns contra os outros. Mas por que motivo agirão eles assim? Vou dizer-to: na imensa rede de linhas, de agulhamentos e de sinais que se estende à volta da Terra perde-se toda a força da consciência. Se conseguíssemos arranjar forças para pormos à prova mais uma vez e encararmos o nosso dever, faríamos sempre o necessário e evitaríamos o acidente. O acidente é a nossa paragem no antepenúltimo passo. [...] Porém, os comboios colidem porque a nossa consciência se recusa a dar o último passo. Os mundos não emergem senão quando atiramos sobre eles».

Robert Musil
O Homem Sem Qualidades, vol. III

23.2.15

Solidão, fantasma e corpo

Desejo tanto quanto temo a solidão. Este aparente paradoxo mais não é do que a única forma possível de ficar de pé perante nós mesmos e os outros, superando a abominação de se estar confinado a um único relacionamento (eu comigo mesmo), perpetrado contra os outros, superando, depois, a necessidade de uma espécie de poligamia do ser, contra si mesmo, nos piores dos casos, ou contra o mundo, nos melhores. Todos nós sofremos esta e desta ausência. O fantasma que caminha somos nós e é, sobretudo, avistado nas vizinhanças, perto de casa, ou seja, perto do covil do ser, aparentando ares de vida comum: carregando sacos com leguminosas e leite para a manhã, indo para o café beber a imperial do fim do dia num comércio de pequenas e supostas agradáveis palavras com a gente do bairro. O desejo do fantasma sempre foi o de voltar a um corpo que lhe dê de novo forma. Um corpo que não o seu, portanto, mas o corpo que o receba plenamente. O desejo supremo é o de encontrar-se a solidão partilhada, em que sejamos simultaneamente, e bilateralmente, fantasma e corpo um do outro. Tarefa demasiado lírica para uma vida demasiado chã. Mas é dessa superfície onde todos nós nos limanos que será ela, liricamente, conseguida, se um dia for conseguida. Digamos que é de um simples e repetido aperto de mão que as mãos se tocam. Noutro caso, não se tocariam tão facilmente. Mas o que faz com que uma mão chegue a murmurar o conteúdo de outra mão, da mão-fantasma? Como é que no domínio das fantasmagorias não prevalecerá sempre o abrir-se do alçapão onde o esticão final do iludido volta ao nada de onde veio? Como abdicar da tristeza na aposta? E porquê falar disto tudo como se houvesse um peso vindo não se sabe de onde pousar no fundo do que se diz, como chumbo, como um chumbo maldito e inaceitável para a vida (talvez aparentemente) tão feliz do bairro. O vizinho observa a minha nuca e deslumbra-se com uma pena cinzenta que lá pousou. Deslumbra-se enojado, para ser mais precisa. Ninguém quer ser assim tão triste. E, no fundo, quando as luzes se ligam, não sou. A minha cara é como um disco de twist and shout; os meus olhos uma goluseima translúcida a clamar vinganças brincaleantes de coisas a rebentar de vida. Pior ainda: ninguém quer ser assim tão triste quando é capaz de ser o mais antipodal do que é na verdade. Perante a tristeza somos todos escravos. Colhemos o algodão, fiamos, comemos o que nos dão e durmimos pouco. Restam-nos as fogueiras e as canções quando ela se ausenta para comprar mais almas no mercado e ir estendendo as mãos.

16.2.15

Ovo de Fabergé

Aos ossos hei-de pô-los naquela caixa de farinha lacto-búlgara.
Será o nosso ovo de Fabergé mas com os Czares e as Czarinas lá mortos.
Ao seu lado pedirei que cante um canário ou que grasne, conforme os movimentos da urna.
Longos vazios de tempo retocarão o pó remanescente.
Nada de muito importante aconteceu, meramente acontecemos nós e ali ficámos,
com todas as árvores que vimos. Se nos parecer pouco, é mais do que suficiente.
A alegria pedimo-la e havia dias em que sim. Mas não eram esses os melhores dias.
Os melhores dias era quando as coisas inamissíveis chegavam por fim.
Vinham em diversas formas, como balões histéricos e clarinetes,
mas sempre com um método, mais não fosse o do espaçamento, essa violência da espera.
A espaços largos uma faca de serra virava-se para as nuvens, afrontando-as.
De longe, era como se uma formação rochosa brilhasse afincadamente.
Nos dias seguintes, éramos obrigados a atravessá-las, sem nos ferirmos,
até que alguns de nós ficaram demasiado ávidos e não iam, à espera dos próximos balões.

Fissão

São também meus os caminhos desgastados por pequenos milagres e moedas perdidas.
Apanho-os do chão, ponho uma peruca dourada e procuro esses navios de pessoas
naquelas mesas cambaleantes, de sorrisos embarcadiços e almas como cargueiros afundados.
Procuro alguém que me fale do vapor e dos céus parados no tempo,
de alguém que se mova como o Clermont na sua primeira viagem
(A visiting Frenchman by the name of Michaux was one of only 
two new passengers who mustered the courage to book passage
on the return trip to New York City. Fear of the boiler exploding 
scared off any other would-be voyagers).
Mas poucos são aqueles que abrem o vento em dois para a sua passagem.
Quando os vejo é como se visse o fio da apostasia a cortar-se até às profundezas da fé,
com os olhos desfeitos pela luz das alforrecas, escuros como corais onde outro tipo de vidas, bem diferentes, estão para lá desta tão nossa noção de sangue.

27.1.15


Com a idade aprendi a ficar-me pelas pequenas alegrias, como esta de estender roupa num súbito dia de sol. Houve um tempo em que o mundo me inundou e a terra abriu-se para um caminho pelo qual sempre esperei. Tudo levitava. Mas a terra fechou-se. E agora fico com estes dias todos nas mãos sem saber bem o que fazer deles. Agora simplesmente já não sei de nada. A Grécia antiga, com os seus barcos côncavos, assomam numa cítara que respira debaixo de terra e o vento que outrora me mostrava tão bem todos os recantos do caminho sopra agora tão ao de longe. Mas embora tenha andado de um lado para o outro, estou exactamente no mesmo lugar.