1.10.14

Por causa de Trostky

Aquele que se recusa a adormecer nos braços da sua mais fiel metáfora,
disse Trostky a Bréton, 
aquele que espera que a noite não cesse mais
e siga como uma ave de arribação
à procura de lugares sem sol como Lagash
aquele que não tem lugar marcado no senáculo das imagens
e só se demora em confrontos com estranhos
aquele que não ama o dado
nem desama o que se deu
aquele que se guarda num quarto pequeno
e tens olhos de Peter Lorre
aquele que te pede dinheiro para o queimar na tua mão
aquele que a insónia consumiu e deseclipsou o coração
aquele que é de há muitos séculos atrás e à frente
que não sabe estar em lado nenhum
e canta no alto de uma matilha azul
e anda triste como uma lua mal parada
e não sabe viver embora viva para dizê-lo.

29.9.14

Dia de aniversário

Acordar para um dia de aniversário
sentada nos ramos brilhantes da argânia
como nuns olhos de um estranho
que pela primeira vez nos começou a amar.

Acordar para um dia de aniversário
com um guarda-sol apontado para a estrela fixa
a escrever o testamento de uma vida
com quintal, pomar e columbário.

Acordar para um dia de aniversário
devorada pelo amor da nave mãe
e ser devolvida à terra com os ossos limpos.

(A minha mãe que sabe tudo
quanto o mundo me devia ensinar
só não sabe - por palavras -
que quando me fez nascer pôs-se cá dentro
como um cão de guarda e outro de ataque.

Como todas as mães que sabem tudo
quanto o mundo nos devia ensinar
só não sabem isto.

Excepto no dia dos nossos aniversários
em que o amor delas rebenta com a trela onde se força a aquietar
e corre desenfreado na ponta mais feliz da cauda do nosso sangue.)

Acordar para um dia de aniversário
em grinaldas, barcos desfeitos e cabras montanhesas
num manto de motivos cartográficos.

Acordar contigo e um bolo de chocolate
um copo de vinho e um toldo
com lama até ao peito
até não ser tarde demais para comemorar.

(Eu era bela e pequena.
Tinha um sonho posto em Marte.
A minha pele fazia o vento cantar
e os cabelos serviam para cobrir os que passam frio.

Até que fiz anos vezes demais.)

22.9.14

Afinal também pode ser o Bob Dylan


Disintegration

Não há melhor álbum para ouvir hoje, num contraluz azul-escudo, do que o Disintegration, dos The Cure, com a cabeça deitada a trabalhar num texto utilitário a caminho da incúria.
Basta pôr um álbum a tocar e todas as nuvens descem das alturas para a meã realidade.
Foi do nada do universo que a hipótese de haver uma opolência de sentido se colocou pela primeira vez.
A memória, mal calculada para resolver as futuras responsabilidades de um esquecimento vitalício, não é, afinal, hábil para esquecer.
Não me é permitido usufruir da pensão alimentícia do silêncio.
Parece que quando envolve promissórias, perco sempre.
Parece que quando vejo uma flor a minha pele fica à guarda.
Algo está mal quando uma pequena parede branca faz recordar juncos e outros sítios húmidos.
Um cabelo pousa mortalmente no chão.
A um canto da sala jaz um pequeno lagarto com formigas carpideiras.
Não o consigo apanhar.
Não o consigo apanhar.
A sensibilidade é como a antiga amortalhadeira da aldeia, mas nem repara se o que veste está ou não defunto por dentro.
Por dentro é que a morte está realmente. Por fora pode fingir. Como finjo.
Alguém que me traga um copo e venha para aqui sentar-se comigo e apanhe o pobre lagarto que a gata trouxe dos telhados.
E conte histórias para esquecer.



15.9.14

Selva dos dias

Ir às compras para o jantar depois de um dia de trabalho cruel. A rapariga da caixa indagar o porquê da minha cara parecer ter sido esmagada por um camião-cisterna na pior curva da estrada. Carregar as traquitanas alimentares como quem carrega chumbo. Subir mais lanços de escada para chegar até casa do que me lembro de ter descido para sair de manhã. Chegar a casa e a casa continuar a pedir-nos mais trabalho. Acomodar os pertences alimentares em seus lugares. Lavar loiça. Preparar o jantar e o almoço de amanhã. Gerir a orquestra do fogão como um surdo gere uma ausência de sinfonia. Mudar a areia dos gatos. Dar de comer aos gatos. Tratar da roupa. Fazer a cama. Arrumar coisas. Arrumar tantas coisas mais do aquelas de que me lembro existirem em casa quando saí de manhã. Lavar mais loiça. Tratar do lixo. Tratar de tanto lixo que parece que vivo em regime industrial. Regar as plantas aromáticas, embora metade delas estejam mais secas do que a boca de um morto. Sentar-me finalmente aqui. Sentar-me tanto que julgo ter nascido sentada num poltrona funda e bulbar. Continuar a pesquisar umas coisas para o trabalho. Pesquisar tanto que os resultados são sempre «zero resultados encontrados». Reparar que anoiteceu de tal maneira que os gatos tombaram num sono tão pesado quanto os sapatos já no chão depois de me terem tiranizado os pés o dia todo. Parar por um momento. Parar tanto que não sinto nada. Só depois deste sopro de me ter ido embora daqui no vapor da inexistência é que vêm, lentamente, pequeninas ideias à mente, numa valsinha cambada e aleatória. Oiço-as como quem ouve coisas e não quer. Quero descalçar-me delas também, mas elas não deixam. Lembram-me de frases drenadas no meio do disperso. Lembram-me de reconhecer este trabalho silencioso que a vida nos impõe. Que ninguém agradece. Lembram-me de saber que na lei da selva dos dias mais do que a sobrevivência do corpo é a sobrevivência das almas que está em jogo, que arriscamos ao aproximarmo-nos dos lagos para beber água. Lembram-me cada um dos nossos rostos neste debate com a selva. Lembram-me de amar este esforço miúdinho de fazer coisas para nos mantermos vivos. Lembram-me que sem isso não poderíamos levantar a consciência disto para o que está no meio de nós, para quem está no meio de nós, para nós mesmos e como esta força silenciosa, irreconhecida, é porramente bela.

9.9.14

O artista e a sua imagem

Num mundo em que a imagem sobrepesa, em que a idolatria desceu dos deuses para os homens, a grande força a ter-se é a da sua recusa. Parece-me que temos chegado ao limite das mais distantes fronteiras a que a arte leva o seu criador: o da exposição do homem acima da exposição da obra. Não deveria existir uma relação de implicação no fazer-se a obra e no expor-se o artista por ela, ao ponto da obra ficar para segundo plano ou, melhor, transformar-se em sobra do indíviduo. A arte é a linguagem daqueles que partem da observação e do recolhimento e, portanto, deixarem-se em tal ordem a descoberto, à mercê da idolatria, é arriscarem-se a perder esse lugar essencial para a criação: o silêncio necessário que circunda todo o grande autor.

26.5.14

PROBLEMAS EM HISTÓRIA #3

História

História. A História não é rolos de papiro,
pergaminhos esboroados,
nem estátuas de mármore em pedestais.
A História está gravada no coração dos homens,
na esperança, na memória,
nas revoluções, nas revoltas,
nas paradas dos heréticos,
na verdade dos lunáticos,
nas traições,
triunfos, cadafalsos, coroas,
campos de concentração,
na marca do jagunço.
Tudo isto pode ser encontrado
no pequeno e infinito coração dos homens, –
escrevinhado, escondido, acorrentado, –
agitando-se na palma da tua mão,
o coração
que neste preciso momento
passa entre nós despercebido.
História. A História
é como música,
como o redobrar dos sinos
na capela de Vílnius.

Janina Degutytė (Lituânia, 1928-1990)
(versão/tradução AS)