13.3.14

Dona de casa

Nesse sentido, ela acreditava que sendo a terra a grande casa
lá em cima haveria, com certeza, electrificação
e que à noite alguém apagava as lâmpadas celestes
como o seu pai apagava as de casa
para que a embalasse a escuridão.

Na escola, chamavam-na frequentemente de burra.

Com a sua crina amiantada até às espáduas
e os dentes do tamanho de ferraduras
encovados entre uma grossa pasta de labello rosa,
ela não se sentia burra porque não se sentia nada.

Hoje relembro Hélia, menos cruelmente do que então,
criança que cegou da cabeça a brincar ao sol
irritada quando o grande tecto deixava passar a água
ou as cortinas (de puro algodão) encobriam o candeeiro
da sala de estar (que de tão bonito devia ter custado um dinheirão).

Imagino-a hoje gastando a fortuna em alguidares
espalhando-os pelo mundo fora à hora das tempestades
com uma dedicação tão inexcedível quanto a candura
afixada no seu rosto de dona de casa espacial.

6.3.14

Livros

Bem sei que é um lugar-comum o que a seguir passarei a contar. 
Os lugares-comuns são assustadores, se se dá o caso de sermos alguém que teme repetir-se ou repetir, simplesmente. Mas estes cumprem também uma função importante, mais não seja a de evidenciarem as tautologias, tautologias essas que correspondem a verdades invariavelmente universais. Se todos nós temêssemos dizer o que já foi dito, o mercado das verdades universais teria muito menos saída, apesar de uma coisa não negar a outra e elas continuarem a não desmentir o que afirmam, pois estão num plano de autosuficiência, ao contrário de toda e qualquer linguagem, que requer algo a que se reporte, mesmo quando se brinca com o fogo do não sentido, é até ao não sentido que se está a referir.
A propósito disto ocorre-me sempre uma pergunta inoportuna, porque ainda não descobri derradeiramente resposta para ela: o que se filtra sai igual ou diferente de cada vez que se filtra? Isto é, cada homem diz diferentemente o que é comum? Obviamente, há que distinguir aqui o ser do modo. Mas será o modo suficiente para moldar o ser?
Lembro-me da cena do La Nave va em que o jornalista-narrador aborda esta questão depois de ter partilhado connosco uma página do seu diário. Questão que ele não continuou, mas na qual me fixo invariavelmente, tendo tomado o gosto por este tipo de reflexões há já algum tempo, a que geralmente não levam a lado nenhum a não ser a uma angústia lentamente estranguladora e que se agudiza com o passar dos anos.
O que não passa também (e é este o lugar-comum) é o amor aos livros, uma espécie de sentimento a dias que vem limpar das nossas mentes toda a balbúrdia com a qual convivemos quando ele parece não estar cá. A alegria súbita pela qual somos tomados quando algo de extraordinário vêm ter connosco, arenjando-nos, como uma velha manta à janela num dia de sol.

5.3.14

Ganda sonzinho


Os anos 70 desta banda também são do best.

11.2.14

Grécia

Agora está o solo puro, e as mãos de todos nós
e os cálices. Um põe-nos as coroas entretecidas,
e outro oferece-nos numa taça a essência fragrante.

O crater está repleto de boa disposição.

Está já pronto outro vinho, que garante que jamais
abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.
No meio, uma árvore de incenso desprende um sacro aroma;
a água está fresca, doce e pura.
Aqui temos os fulvos pães e a mesa sumptuosa,
carregada de queijo e de pingue mel.
Ao meio, o altar está todo coberto de flores.

A música festiva domina o ambiente.
Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,
com ditos de bom augúrio e palavras puras.
Depois de fazer as libações e preces para procederem
com justiça — pois isso é a primeira lisa —
não é insolente beber até ao ponto de se poder voltar a casa
sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso.


Xenófanes de Cólofon (séc. VI-V a. C.)
(fragmento 1, ed. Diels-Kranz, versos 1-18)
(tradução Maria Helena da Rocha Pereira)

 

PROBLEMAS EM HISTÓRIA 1

«O problema das fontes coloca-se de forma dramática quando se querem ouvir as vozes dos desfavorecidos e dos marginalizados. O documento escrito apenas permite uma visão de cima para baixo. Como compreender os que ao longo dos séculos não escreveram?» 

Miriam Halpern Pereira
in O Gosto pela História - percursos de História Contemporânea (ICS, p. 40)

10.2.14



Não existe outra terra, meu amigo, nem outro mar,
Porque a cidade irá atrás de ti; as mesmas ruas
Cruzam sem fim as mesmas ruas; os mesmos
Subúrbios do espírito passam da juventude à velhice,
E tu perderás os teus dentes e os teus cabelos
Dentro da mesma casa. A cidade é uma armadilha.
Só este porto te espera,
E nenhum navio te levará onde não podes.
Ah! então não vês que te desgraçaste neste lugar miserável
E que a tua vida já não vale nada,
Nem que vás procurá-la nos confins da terra?

Lawrence Durrell
(tradução Daniel Gonçalves)

Carson McCullers

Carson McCullers

Morreu de alcoolismo
enrolada numa manta
sentada num convés
de navio a vapor.

todos os seus livros de
terrífica solidão

todos os seus livros sobre
a crueldade
do amoroso amor

são aquele casual passageiro
que ao descobrir o seu corpo

notifica o capitão

para que prontamente seja despachada
algures para outro sítio
do navio

enquanto tudo
continua tal
e qual
como ela o escreveu.

Charles Bukowski

(versão minha)