20.4.15

Os dois jogadores de Xadrez

Mesmo que o jogo seja apenas sonho
e não haja parceiro,
imitemos os persas desta história.

Ricardo Reis, «Os grandes indiferentes»

Procuro as chaves das sessenta e quatro casas.
Do pouco que têm servido,
conta-se que se deslumbraram,
que mudaram de lugar,
que se perderam nalguma fortaleza
ou volveram em sangue pela meada da ínfula sacrificial.
Dizem, porém, que nos seus leitos
o próprio sonho se sonha
e tudo é possível movimento.
Devolvem-me longínquos fumos brancos,
ateam o fumo nas chaminés dos meus olhos
que, por momentos abertos, são duas torres paradas.
Por trinta e duas vezes toquei-lhes à porta.
Por trinta e duas vezes nasci-lhes
como uma herbácea memória no reboco.
Pedra a pedra lobriguei resposta.
Pedra a pedra hesitei aos avanços de quem me ensinasse
que chegar até elas é chegar àquele que, de frente, está ao lado.
Não fui, então, logo de cavalo
porque esse seria um modo de chegar esquivo.
Fui na diagonal, debaixo do arvoredo.

17.4.15

Noites

Houve músicas de amor que em tempos planearam mudar o mundo
de um modo diferente do plano que hoje enviam para as linhas celestes,
como se todas as músicas do mundo fossem diferentes por chegarem diferentemente,
como se tudo tivesse direito a um novo começo.

Perguntas-te: terão mesmo esse direito?
Segundo o quê, segundo que sagradíssima Constituição?

Golas sobre camisolas, trocos nos bolsos, unhas de cores puídas,
tudo numa vontade de cair em tentação de um abstracto plano de mudar o mundo,
mesmo que em passos lentos número trinta e cinco,
ainda assim um pouco antes da tua idade correndo a pulso para o rosto
com o qual apresentas a tua noite à noite dos outros
nalguma mesinha segurando copinhos de papel.

Rapariga de joelhos infinitos, aonde genuflectir
senão nessa grande massa de ar no peito que ninguém opera?
Nessa boca enxertada de pomares: e a que hectares daí?

A quem adiantar a salvação dialéctica de dois seios hegelianos,
a quem ler passagens de tudo o que o cérebro sentimentalmente triturou,
a quem ouvir e contar histórias com reavido entusiasmo?

Tão rápida é a transformação da cama em maca,
da colisão macrocósmica em fricção bacteoroscópica,
da permanência em mera amostra, tão rápida que melhor é regressar
a casa mais cedo com motorista que de ti nada mais deseje do que,
para além do devido, tenhas também a espórtula, tão citadina rapariga,
com os teus auscultadores, produto indiferenciado e, no entanto,
por onde a magia passa a distâncias milenares do plástico.

rioscópico,

"esfregaço", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/esfrega%C3%A7o [consultado em 17-04-2015].


Ishtar

Louvada seja a deusa, a mais poderosa das deusas.
Que se venere a soberana dos povos, a favorita dos Igigi
Louvada seja Ishtar, a mais poderosa das deusas.
Que se venere a rainha das mulheres, a favorita dos deuses menores.

Traz no corpo as vestes do prazer e do amor,
sopradas pela vitalidade, pelo fascínio e pela volúpia.
Ishtar, que se veste de prazer e amor,
veste-se também de vitalidade, fascínio e volúpia.

Nos lábios é doce, a vida está em sua boca.
Quando ela surge, a alegria completa-se.
Maravilhoso rosto, coberto por maravilhosos véus.

Maravilhoso o corpo que no cimo brilha, onde traz os olhos.
A deusa – com ela estão os desígnios.

O destino de tudo segura em sua mão.
A um olhar seu, cria-se a alegria,
Poder, esplendor, deidade protectora e espírito guardião.

Ela insiste, traz consigo dois corações:
um para a compaixão, outro para a amizade.
Além do mais, é de todas a mais aprazível.

Seja escrava, jovem, solteira ou mãe, ela todas protege.
Recorrem a ela, seu nome invocam para o amor e para o prazer,
mesmo que depois do sexo venha a guerra, Isthar é adorada,
o seu nome invocam para o amor e para o prazer.

(excerto do poema babilónico de 1800 a.c. dedicado à deusa Ishtar, numa versão livre e ligeiramente acrescentada. Trata-se de um dos primeiros poemas escritos conhecidos pelos homens.)

14.4.15

No tempo em que os ossos cantavam no meu corpo
e se estendia para mim o sol sobre a pele
atravessando uma paisagem de linho sobre os ombros, as omoplatas, as esferas dos dedos,
e uma flauta se juntava das profundezas de um canavial,
os meus olhos cresciam imensamente escuros numa fé que julguei perder.

Mas nenhuma fé se perde.
Apenas que é uma agulha.
Uma música que se silencia se não a quisermos escutar mais.

Eu que tinha esse corpo com essa fé, era ágil sobre o que não sabia
e podia caçar de noite e de dia porque nada era furtivo.

Tinha a beleza de uma comunhão e sabia partilhar-me.

Agora hesito. Hesito como se a água hesitasse ao cair de uma fonte.

Hesito à boca do orvalho como se fosse do poente.

Porque não sei como começar de novo a ser corpo,
a banhar-me junto dos cristalinos peixes das mãos.

2.3.15

Arder livremente

«[...] Podia talvez dizer-se que a alma de Ágata procurava uma outra possibilidade de arder livremente. Era hábito, no princípio destas conversas, ela fazer uma perguntaa exacta e pessoal cuja forma interior seria: «Tenho ou não o direito?». A anarquia da sua natureza revestira-se sempre da forma triste e cansada desta convicção: «Tenho o direito de fazer tudo mas não há nada que eu queira fazer». Por isso as perguntas da irmã causavam por vezes a Ulrich, compreensivelmente, um sentimento análogo ao que nos provocam as perguntas das crianças, tão quentes como as mãozinhas destes seres indefesos».

Robert Musil
O Homem Sem Qualidades, vol. III

A precipitação (das coisas/seres que se lançam uns sobre os outros)

«É evidente que os condutores não lançam propositadamente os comboios uns contra os outros. Mas por que motivo agirão eles assim? Vou dizer-to: na imensa rede de linhas, de agulhamentos e de sinais que se estende à volta da Terra perde-se toda a força da consciência. Se conseguíssemos arranjar forças para pormos à prova mais uma vez e encararmos o nosso dever, faríamos sempre o necessário e evitaríamos o acidente. O acidente é a nossa paragem no antepenúltimo passo. [...] Porém, os comboios colidem porque a nossa consciência se recusa a dar o último passo. Os mundos não emergem senão quando atiramos sobre eles».

Robert Musil
O Homem Sem Qualidades, vol. III

23.2.15

Solidão, fantasma e corpo

Desejo tanto quanto temo a solidão. Este aparente paradoxo mais não é do que a única forma possível de ficar de pé perante nós mesmos e os outros, superando a abominação de se estar confinado a um único relacionamento (eu comigo mesmo), perpetrado contra os outros, superando, depois, a necessidade de uma espécie de poligamia do ser, contra si mesmo, nos piores dos casos, ou contra o mundo, nos melhores. Todos nós sofremos esta e desta ausência. O fantasma que caminha somos nós e é, sobretudo, avistado nas vizinhanças, perto de casa, ou seja, perto do covil do ser, aparentando ares de vida comum: carregando sacos com leguminosas e leite para a manhã, indo para o café beber a imperial do fim do dia num comércio de pequenas e supostas agradáveis palavras com a gente do bairro. O desejo do fantasma sempre foi o de voltar a um corpo que lhe dê de novo forma. Um corpo que não o seu, portanto, mas o corpo que o receba plenamente. O desejo supremo é o de encontrar-se a solidão partilhada, em que sejamos simultaneamente, e bilateralmente, fantasma e corpo um do outro. Tarefa demasiado lírica para uma vida demasiado chã. Mas é dessa superfície onde todos nós nos limanos que será ela, liricamente, conseguida, se um dia for conseguida. Digamos que é de um simples e repetido aperto de mão que as mãos se tocam. Noutro caso, não se tocariam tão facilmente. Mas o que faz com que uma mão chegue a murmurar o conteúdo de outra mão, da mão-fantasma? Como é que no domínio das fantasmagorias não prevalecerá sempre o abrir-se do alçapão onde o esticão final do iludido volta ao nada de onde veio? Como abdicar da tristeza na aposta? E porquê falar disto tudo como se houvesse um peso vindo não se sabe de onde pousar no fundo do que se diz, como chumbo, como um chumbo maldito e inaceitável para a vida (talvez aparentemente) tão feliz do bairro. O vizinho observa a minha nuca e deslumbra-se com uma pena cinzenta que lá pousou. Deslumbra-se enojado, para ser mais precisa. Ninguém quer ser assim tão triste. E, no fundo, quando as luzes se ligam, não sou. A minha cara é como um disco de twist and shout; os meus olhos uma goluseima translúcida a clamar vinganças brincaleantes de coisas a rebentar de vida. Pior ainda: ninguém quer ser assim tão triste quando é capaz de ser o mais antipodal do que é na verdade. Perante a tristeza somos todos escravos. Colhemos o algodão, fiamos, comemos o que nos dão e durmimos pouco. Restam-nos as fogueiras e as canções quando ela se ausenta para comprar mais almas no mercado e ir estendendo as mãos.