26.5.14

PROBLEMAS EM HISTÓRIA #3

História

História. A História não é rolos de papiro,
pergaminhos esboroados,
nem estátuas de mármore em pedestais.
A História está gravada no coração dos homens,
na esperança, na memória,
nas revoluções, nas revoltas,
nas paradas dos heréticos,
na verdade dos lunáticos,
nas traições,
triunfos, cadafalsos, coroas,
campos de concentração,
na marca do jagunço.
Tudo isto pode ser encontrado
no pequeno e infinito coração dos homens, –
escrevinhado, escondido, acorrentado, –
agitando-se na palma da tua mão,
o coração
que neste preciso momento
passa entre nós despercebido.
História. A História
é como música,
como o redobrar dos sinos
na capela de Vílnius.

Janina Degutytė (Lituânia, 1928-1990)
(versão/tradução AS)


23.5.14

Resposta tardia #2

Já que avancei com a anterior resposta ao putativo jornalista, acabo por responder também a outro assunto que na altura me incomodou, era para ter respondido, mas acabei por considerar que era escusado. Por um lado, não gosto deste tipo de polémicas vazias (apesar de parecer que tenho um íman que as atrai, fdx); por outro lado, tenho mais o que fazer. 

Seja como for, refiro-me a uma crítica à revista de poesia golpe d'asa n.º 1, feita pelo Manuel de Freitas, na cão celeste n.º 2. Tem direito à sua opinião, tem direito a não gostar, o que é triste é vê-lo a fazer uma crítica como quem dá um golpezinho baixo, beneficiando de ser um tipo com imensos anos nestas lides para tentar fazer um knockout público a um projecto que estava a dar os seus primeiros passos e é feito com amor e seriedade. O que vale é que as pessoas não são parvas e por elas próprias hão-de fazer os seus juízos, uma opinião vale o que vale. Mas esperava mais, achei injusto e precipitado. 

Seja como for, continuo a sublinhar que o MF teve e tem uma importante acção no campo da edição de poesia, juntamente com a Inês Dias, a par de não assim tantas outras pessoas que noutras casas editoriais ainda se dedicam a algo que está fadado a ser, por natureza, um não-negócio: onde o principal lucro (ou talvez até o único lucro) é o amor e a dedicação à causa literária e poética. 

E acho bonito que estejam recentemente a nascer pequeníssimas editoras que, do próprio bolso dos editores, vão fazendo o seu trabalho de recolha do que se vai escrevendo, criando novos catálogos, promovendo a tradução também (que é fulcral!). 

Ao contrário de outras pessoas, acho muito bem que se publique tudo, se assim for desejo de autor e editora e houver recursos, nem que seja uns tostões nos bolsos, para isso. 

Como diz o sr. Manuel Maneira, que tem 1 héctar de horta na Escusa, Marvão (a horta-poema): o que importa é a variedade. O leitor comerá o que entender, o tempo devorará o que tiver de devorar.

22.5.14

Durante o estudo


O meu trabalho é ali, sobre a mesa
quando me aproximo até ao sentido
das coisas amadas que me cercam:
o calor da pele, ao simples contacto
do ar, atira-me em palavras ao tapete
numa harmonia de luz e contrastes.

Penso que o mundo claro do meu quarto,
detido na sua marcha com o dia,
se esqueceu de ser algo na terra,
então abre um caminho alegre
e desprende-se
para um céu entre paredes.

Sol Acín (1925-1998)
En ese cielo oscuro (1979)
(versão/tradução AS)



 

PROBLEMAS EM HISTÓRIA #2

Ensina Grande História (Big History) e é um dos cientistas que mais têm contribuído para divulgar esta nova disciplina. Quer resumir o que é a Grande História e quais são as principais vantagens da abordagem que ela propõe?
No mundo académico, as disciplinas estão muito separadas umas das outras: as pessoas dos departamentos de paleontologia e astronomia não têm nada a dizer umas às outras, e as que estudam a história da espécie humana não têm nada a dizer nem a umas nem a outras. Achámos que era uma pena e foi assim que surgiu a ideia da Grande História, cujo objectivo é pensar tudo o que aconteceu no passado, desde o início do tempo, e criar uma história coerente, quebrando barreiras entre disciplinas.

Walter Alvarez

 Excerto da entrevista.

Homossem

A noite vinha com umas mãos curvas de milagre
eram mãos tuas eram mãos minhas curvas de milagre
tu eras um holofote azul de dirigires alucinações
de prazer cor-de-rosa
tu eras uma flutuação constante de penumbra e surpresa
era um corpo de admiração e sublime
eras garbo da tua idade já nocturna para o pecado
tinhas uma mão que fazia regressar o espaço
por onde puxavas o amor
eras um corpo suave de admiração e sublime
um requinte de trazeres intenções pelo fato
tinhas um casaco especial de convidar uma visita
uma surpresa emancipava-te a vontade do queixo
não esqueço uma tua boca de construção de virtudes
porque beijavas onde o símbolo requeria
havia-te casa pelo convite da mão
eu sabia que a tua palma tinha um rio que fazia estalar
o medo
era a sedução de tu meditares longamente sobre quem te fosse
mais próximo
e nascia um horizonte duma maneira do teu olhar
Fazias o espaço ser-te magia de convite
convidavas uma semente de ir lá
porque não se falava no que se ia saber
nós tínhamos um conforto de destino próximo e azul
que era a manhã de tu fazeres desaparecer o medo do rio
Não íamos quebrar fauna pelos bosques
íamos sair ao concreto do tempo
por onde tu erigisses catedrais de
inauguração sentimental
Era um amor que tinhas
era inauguração dum desejo
o medo do rio que tinha uma manhã por dentro
era tudo tão diferente e admirado de nós
a maneira das coisas nos olharem por cima do dia
como o que fosse diferente de imaginar
Nada acontecia
Tu eras um holofote azul de construíres
alucinações de meio-dia cor-de-rosa.

António Gancho 
O ar da manhã

21.5.14

Resposta tardia

Há coisas que nos ficam na alma e que, por muito que as tentemos calar, há um dia que não podem ser mais contidas. Nunca cheguei a ripostar a patetada de artigo do Paulo Moura no Ípsilon de 29 de Março do ano passado, «Os nossos novos poetas não são uma geração perdida». 

Estava hoje à procura de um texto meu sobre um livro que recentemente analisei e dou conta no google de um post no Tim Tim no Tibet sobre o assunto e não me contive. Tive de responder.

O pior de tudo isto é que esta reportagem do Paulo Moura foi uma pulhice e é um exemplo típico de um jornalista a inventar realidades e a ouvir-se a si mesmo em vez de ouvir os outros, a deturpar sem escrúpulos o que realmente ouviu.

As condições dessa conversa na Brasileira não foram a de ser uma entrevista, mas meramente uma conversa para lhe entregar os exemplares da revista (os quais nem deve ter aberto). Vinha munido de um bloquinho de notas, que mal rabiscou. Como pode um jornalista ter passagens de entrevista no seu artigo, colocando falas entre aspas, sem ter gravado o que a pessoa diz? Como pode confiar na sua memória a esse ponto? Não é deontológico, nem profissional.

Eu não disse nada disso, pelo menos nesses termos boçais e idióticos. O termo pop star é do jornalista e a explicação também.

Em relação ao Manuel de Freitas, o que disse e é verdade é que ele pertence a um grupo de poetas que começou a publicar entre 1999 e a primeira década de 2000 que chegaram a leitores mais novos que estavam a iniciar-se nas leituras para além do que era proposto no secundário. Um grupo de poetas (que a leitura agrupa, não a escrita) como Vasco Gato, Nuno Moura, entre outros, de idades próximas às nossas e que, por esse elemento biográfico, surtiam um efeito de proximidade.

E, só para se ter noção de como o termo hiperpatético de pop star nasceu na mente do jornalista, contava eu que as leituras que eu fazia na altura (dealbares de 2000, tinha eu cerca de 18 anos), onde se encontravam os livros do Manuel de Freitas (entre tantos outros), misturavam-se com as minhas experiências de ouvir música, começar a fumar os primeiros cigarros, pertencer a uma banda: a poesia fazia parte dessas experiências de descoberta e de transgressão e transposição de uma "idade controlada" para uma "idade mais rebelde". Daí a meter-me na boca o que eu não disse, vai um passo gigante.

E outra coisa: como é que um autor diz que deve a sua escrita a outro, a uma editora, a uma revista (que na altura nem sequer existiam), sem ter a consciência de estar a diminuir-se publicamente? Quem faria isso conscientemente? Só um idiota.

Idiota senti-me por ter anuido a falar da revista que dirijo (porque é de responsabilidade de um grupo e não só individual) com alguma inocência e confiança num putativo profissionalismo e ter-me aparecido esse aborto de referência.

Se eu já sabia que devemos sempre exercer o primado da desconfiança quando se lêem artigos deste género ou entrevistas em jornais, depois de sofrer na pele este ultraje, estou mais do que escaldada.

Vim aqui parar porque andava à procura de um texto meu e dou-me conta desta opinião que em tudo é válida menos na fonte onde se baseia.

E se o jornalista em causa foi anti-profissional comigo e ficcionou/adulterou as minhas falas, tudo me leva a crer que também terá alterado a das outras pessoas.

O jornalista é claramente hiperbólico e efabulador, selecciona mal, importa-lhe o anedótico e o telenovelesco que ele próprio concebe. Não sei qual foi o seu objectivo com esta crónica: se gozar com os internevientes, se escrever uma carta de amor a Manuel de Freitas.

Quanto às guerras entre gerações e inter gerações poéticas é óbvio que já não mobilizam, mas poderiam ter o seu efeito produtivo, se fossem em campo aberto (feitas com honestidade e com bravura e finura intelectuais) e tendo em conta não aspectos pessoais mas aspectos fundacionais das poéticas e suas ideias e formas em causa como se fez na época das vanguardas.

Mas também sobre isso os situacionistas diziam que os exercícios de oposição por oposição presente nalguma actividade vanguardista não eram mais do que manifestações dos complexos de estética que a cultura também é: que uma vez é mais assim, outra vez é mais assado.

Mas as guerras entre poetas hoje não fazem sentido: porque não há verdadeiramente gerações opostas, mas sim uma pluralidade que as atravessa, gerando núcleos de sensibilidades próximas numa faixa etária igual ao do entretenimento familiar: dos 8 aos 80.

Sobre o papel de alguns poetas específicos muito se poderia dizer. O próprio conceito de liderança é turvo: há aqueles que querem lidar, há aqueles que os outros querem que lidere.

Acho que o caso referido jocosamente como Papa da poesia portuguesa é especialmente como o último que indico. Mais do que o ser, houve um fenómeno de uma atribuição desse papel e os textos (críticos e ensaísticos) que ele produz parecem alimentar esse reconhecimento, mas noutras alturas também me parece que o quer matar à fome.

A minha leitura é a de que o poeta (e passemos para o campo do abstracto) se desiludiu, porque caiu no erro de olhar demasiado seriamente para o saco social onde a poesia vai parar e de fazer pré-juízos (e às vezes prejuízos) a uma série de autores que, sem os conhecer profundamente, ataca sem seriedade.

E como nós sabemos, onde há pessoas, há desilusão. O presente pode facilmente desiludir. Mas também a desilusão tem o atributo de deformar e uniformizar o escopo com que observa os outros. O poeta desiludido é um animal ferido. Um animal ferido ataca e é pouco parcial nesse ataque: chega a uma altura que vai tudo a eito. Mas também o que importa isso?

Para estas coisas já não há paciência. Deixai-os com os seus achaquezinhos que isso passa. Ou como li algures, as discussões sobre o estado da poesia portuguesa já deram o que tinham a dar.

Este tipo de discussões, então, tem muito o hábito de ser demasiado adstrito ao país, às mesmas pessoas, aos mesmos livros, quando a poesia é e será sempre como a matemática ou a música: uma linguagem universal. 

Às vezes falta substância às discussões e é uma pena.

Contra-imbelicidades #1


sobre a filosofia da História de Hegel.