25.5.15

Coming Back To Life


Where were you when I was burned and broken
While the days slipped by from my window watching
And where were you when I was hurt and I was helpless
Because the things you say and the things you do surround me

While you were hanging yourself on someone else's words
Dying to believe in what you heard
I was staring straight into the shining sun
Lost in thought and lost in time

While the seeds of life and the seeds of change were planted
Outside the rain fell dark and slow
While I pondered on this dangerous but irresistible pastime
I took a heavenly ride through our silence

I knew the moment had arrived
For killing the past and coming back to life
I took a heavenly ride through our silence
I knew the waiting had begun
And headed straight into the shining sun

20.4.15

Os dois jogadores de Xadrez

Mesmo que o jogo seja apenas sonho
e não haja parceiro,
imitemos os persas desta história.

Ricardo Reis, «Os grandes indiferentes»

Procuro as chaves das sessenta e quatro casas.
Do pouco que têm servido,
conta-se que se deslumbraram,
que mudaram de lugar,
que se perderam nalguma fortaleza
ou volveram em sangue pela meada da ínfula sacrificial.
Dizem, porém, que nos seus leitos
o próprio sonho se sonha
e tudo é possível movimento.
Devolvem-me longínquos fumos brancos,
ateam o fumo nas chaminés dos meus olhos
que, por momentos abertos, são duas torres paradas.
Por trinta e duas vezes toquei-lhes à porta.
Por trinta e duas vezes nasci-lhes
como uma herbácea memória no reboco.
Pedra a pedra lobriguei resposta.
Pedra a pedra hesitei aos avanços de quem me ensinasse
que chegar até elas é chegar àquele que, de frente, está ao lado.
Não fui, então, logo de cavalo
porque esse seria um modo de chegar esquivo.
Fui na diagonal, debaixo do arvoredo.

17.4.15

Noites

Houve músicas de amor que em tempos planearam mudar o mundo
de um modo diferente do plano que hoje enviam para as linhas celestes,
como se todas as músicas do mundo fossem diferentes por chegarem diferentemente,
como se tudo tivesse direito a um novo começo.

Perguntas-te: terão mesmo esse direito?
Segundo o quê, segundo que sagradíssima Constituição?

Golas sobre camisolas, trocos nos bolsos, unhas de cores puídas,
tudo numa vontade de cair em tentação de um abstracto plano de mudar o mundo,
mesmo que em passos lentos número trinta e cinco,
ainda assim um pouco antes da tua idade correndo a pulso para o rosto
com o qual apresentas a tua noite à noite dos outros
nalguma mesinha segurando copinhos de papel.

Rapariga de joelhos infinitos, aonde genuflectir
senão nessa grande massa de ar no peito que ninguém opera?
Nessa boca enxertada de pomares: e a que hectares daí?

A quem adiantar a salvação dialéctica de dois seios hegelianos,
a quem ler passagens de tudo o que o cérebro sentimentalmente triturou,
a quem ouvir e contar histórias com reavido entusiasmo?

Tão rápida é a transformação da cama em maca,
da colisão macrocósmica em fricção bacteoroscópica,
da permanência em mera amostra, tão rápida que melhor é regressar
a casa mais cedo com motorista que de ti nada mais deseje do que,
para além do devido, tenhas também a espórtula, tão citadina rapariga,
com os teus auscultadores, produto indiferenciado e, no entanto,
por onde a magia passa a distâncias milenares do plástico.

rioscópico,

"esfregaço", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/esfrega%C3%A7o [consultado em 17-04-2015].


Ishtar

Louvada seja a deusa, a mais poderosa das deusas.
Que se venere a soberana dos povos, a favorita dos Igigi
Louvada seja Ishtar, a mais poderosa das deusas.
Que se venere a rainha das mulheres, a favorita dos deuses menores.

Traz no corpo as vestes do prazer e do amor,
sopradas pela vitalidade, pelo fascínio e pela volúpia.
Ishtar, que se veste de prazer e amor,
veste-se também de vitalidade, fascínio e volúpia.

Nos lábios é doce, a vida está em sua boca.
Quando ela surge, a alegria completa-se.
Maravilhoso rosto, coberto por maravilhosos véus.

Maravilhoso o corpo que no cimo brilha, onde traz os olhos.
A deusa – com ela estão os desígnios.

O destino de tudo segura em sua mão.
A um olhar seu, cria-se a alegria,
Poder, esplendor, deidade protectora e espírito guardião.

Ela insiste, traz consigo dois corações:
um para a compaixão, outro para a amizade.
Além do mais, é de todas a mais aprazível.

Seja escrava, jovem, solteira ou mãe, ela todas protege.
Recorrem a ela, seu nome invocam para o amor e para o prazer,
mesmo que depois do sexo venha a guerra, Isthar é adorada,
o seu nome invocam para o amor e para o prazer.

(excerto do poema babilónico de 1800 a.c. dedicado à deusa Ishtar, numa versão livre e ligeiramente acrescentada. Trata-se de um dos primeiros poemas escritos conhecidos pelos homens.)

14.4.15

No tempo em que os ossos cantavam no meu corpo
e se estendia para mim o sol sobre a pele
atravessando uma paisagem de linho sobre os ombros, as omoplatas, as esferas dos dedos,
e uma flauta se juntava das profundezas de um canavial,
os meus olhos cresciam imensamente escuros numa fé que julguei perder.

Mas nenhuma fé se perde.
Apenas que é uma agulha.
Uma música que se silencia se não a quisermos escutar mais.

Eu que tinha esse corpo com essa fé, era ágil sobre o que não sabia
e podia caçar de noite e de dia porque nada era furtivo.

Tinha a beleza de uma comunhão e sabia partilhar-me.

Agora hesito. Hesito como se a água hesitasse ao cair de uma fonte.

Hesito à boca do orvalho como se fosse do poente.

Porque não sei como começar de novo a ser corpo,
a banhar-me junto dos cristalinos peixes das mãos.

2.3.15

Arder livremente

«[...] Podia talvez dizer-se que a alma de Ágata procurava uma outra possibilidade de arder livremente. Era hábito, no princípio destas conversas, ela fazer uma perguntaa exacta e pessoal cuja forma interior seria: «Tenho ou não o direito?». A anarquia da sua natureza revestira-se sempre da forma triste e cansada desta convicção: «Tenho o direito de fazer tudo mas não há nada que eu queira fazer». Por isso as perguntas da irmã causavam por vezes a Ulrich, compreensivelmente, um sentimento análogo ao que nos provocam as perguntas das crianças, tão quentes como as mãozinhas destes seres indefesos».

Robert Musil
O Homem Sem Qualidades, vol. III

A precipitação (das coisas/seres que se lançam uns sobre os outros)

«É evidente que os condutores não lançam propositadamente os comboios uns contra os outros. Mas por que motivo agirão eles assim? Vou dizer-to: na imensa rede de linhas, de agulhamentos e de sinais que se estende à volta da Terra perde-se toda a força da consciência. Se conseguíssemos arranjar forças para pormos à prova mais uma vez e encararmos o nosso dever, faríamos sempre o necessário e evitaríamos o acidente. O acidente é a nossa paragem no antepenúltimo passo. [...] Porém, os comboios colidem porque a nossa consciência se recusa a dar o último passo. Os mundos não emergem senão quando atiramos sobre eles».

Robert Musil
O Homem Sem Qualidades, vol. III