27.1.15


Com a idade aprendi a ficar-me pelas pequenas alegrias, como esta de estender roupa num súbito dia de sol. Houve um tempo em que o mundo me inundou e a terra abriu-se para um caminho pelo qual sempre esperei. Tudo levitava. Mas a terra fechou-se. E agora fico com estes dias todos nas mãos sem saber bem o que fazer deles. Agora simplesmente já não sei de nada. A Grécia antiga, com os seus barcos côncavos, assomam numa cítara que respira debaixo de terra e o vento que outrora me mostrava tão bem todos os recantos do caminho sopra agora tão ao de longe. Mas embora tenha andado de um lado para o outro, estou exactamente no mesmo lugar.

13.12.14

17.11.14


Cerca-nos um som de espinhos
crescendo como rosas escuras no ar da noite.
O cerco está a apertar cada vez mais.
Sobre a mesa as cartas jogam-se sozinhas
e há muitos que se decididem por férias
num paraíso para o qual as agências de viagem não conseguem bilhete.
Os velhos bebem o vinho sozinhos
arriscando os amigos em apostas perdidas
e parece que consumiram tudo o que o tempo tem para nos dar.
Parece sobrar-nos um pouco para a ebriedade
mas esse pouco é ainda enorme.
As coroas dos pobres rasgam-nos o céu
e as nossas casas estão frias para além dos telhados
submergidas numa canção que ouvi alguém assobiar
quando se sentou a meu lado e não sabia se dizer se calar
as coisas que partem de nós para se condensarem nos outros
até rebentarem as turbinas e ninguém nos conseguir parar. 


Eu que te olho com este medo
de animal no fim da cadeia alimentar
que me aproximo do teu coração
como de uma armadilha ocultada
eu que estou desenhada para descobrir
esses sons na mínima folhagem
perante ti fico tão desamparada
que toda a floresta fica desflorestada
e não há sítio onde a noite se saiba sossegada.