17.11.14

Quando eu morrer e um dia alguém se lembrar de mim, Salomé,
e me olharem apenas como a poeta do amor falhado,
saibam que estão certos, é pelo amor que vivo e pelo amor que me morro e renasço,
mas saibam também que não amo só um homem,
que o meu amor é político e desgraçado,
que amo tudo e todos,
que toco todos os sábados às campainhas e fujo
para acordar aqueles que estão parados.
Saibam que dessas lágrimas e desse riso
fiz o sonho de um mundo novo,
onde no cimo de um telhado me embebedo com meu homem
e fazemos livros para darmos de comer aos cães e à erva,
mas que lá do alto também vos vimos
com um cinto de estrelas atómicas
prontos para a festa.
A primeira vez que te vi parti as pernas
a segunda vez que te vi parti para longe
a terceira vez que te vi não te quis ver
a quarta vez que te vi parti do pressuposto de que não estavas ali
a quinta vez que te vi não trocámos palavras nem sílabas só uns restos de ar
a sexta vez que te vi partiste tu
a sétima vez que te vi vi-te
a oitava vez que te vi viste-me
a última vez que te vi vimo-nos
e a partir daí nada foi igual
tentei voltar atrás à primeira vez que te vi
mas não te encontrei lá
tentei regressar à segunda vez
mas a corrente puxou-me novamente
da terceira vez nem a força da vontade me abriu os olhos
e da quarta a memória guardou apenas um relógio perdido na parede
da quinta vez tentei falar-te mas tu não te interessaste
da sexta vez o avião já tinha partido e era terrível sofrer num aeroporto
da sétima, da oitava, da última vez fiquei de novo parada a olhar-te
e da comoção de te ver de novo o dia nasceu
e foi essa a última vez que te vi e havia esperança e silêncio.

Cerca-nos um som de espinhos
crescendo como rosas escuras no ar da noite.
O cerco está a apertar cada vez mais.
Sobre a mesa as cartas jogam-se sozinhas
e há muitos que se decididem por férias
num paraíso para o qual as agências de viagem não conseguem bilhete.
Os velhos bebem o vinho sozinhos
arriscando os amigos em apostas perdidas
e parece que consumiram tudo o que o tempo tem para nos dar.
Parece sobrar-nos um pouco para a ebriedade
mas esse pouco é ainda enorme.
As coroas dos pobres rasgam-nos o céu
e as nossas casas estão frias para além dos telhados
submergidas numa canção que ouvi alguém assobiar
quando se sentou a meu lado e não sabia se dizer se calar
as coisas que partem de nós para se condensarem nos outros
até rebentarem as turbinas e ninguém nos conseguir parar. 

Serás tu a lançar-me ao espaço
para a minha última desintegração?
E irás depois recolher-me do pó?
Que farás com ele quando te tocar?

Eu que te olho com este medo
de animal no fim da cadeia alimentar
que me aproximo do teu coração
como de uma armadilha ocultada
eu que estou desenhada para descobrir
esses sons na mínima folhagem
perante ti fico tão desamparada
que toda a floresta fica desflorestada
e não há sítio onde a noite se saiba sossegada.

28.10.14

500 miles


Das mulheres mais belas (no todo) do mundo.