28.10.14

500 miles


Das mulheres mais belas (no todo) do mundo.

25.10.14

20.10.14

Aquilo que não souberes dizer, escreve. Tudo é passível de ser escrito, quando atravessares, sem medo, as mais inóspitas regiões do silêncio e conseguires encontrar esse equilíbrio em que o gelo nem gela nem queima, brilha apenas e ordena uma visão nova pelo ângulo onde o sangue começa a transparecer e uma vontade imensa explica a existência dessa gota que volta à origem da sua agitação. Se nenhuma pegada ficar é porque o caminho não é para ser encontrado por mais ninguém. Segue apaixonado por essa brusquidão branca que te atravessa as mãos e os olhos. Procura, depois, o bar mais próximo e confessa-te de novo apaixonada, febril, a um estranho qualquer: porque isto é estar apaixonada. E não haverá terra onde te possam encontrar. Foste, simplesmente. Não disseste adeus. Não adormeceste, nem adormecerás mais. Vives com um rasgão na face e os olhos escureceram-te mais. Os livros voltaram a fazer-te mal: o mal que é bem, o mal que é a orquestra de fogo da santa inquisição a arder-te com todos esses livros e a líbido dos santos padres que os leram antes de os mandarem queimar. Segue esse fiozinho de electrecidade visível que percorre as veias e, no fim, escreve apenas sem te importar mais nada senão o gesto em si.  

Aldeia

Numa aldeia longe de onde nasci, mas onde pelo menos cem habitantes terão dado uso aos vinte fogos que a ilustravam como uma pequena mas bela aldeiazinha esquecida no mundo, havia uma nora aos caídos, enlamaçada no tempo em que essa gente se fizera feliz ao passar por ela. Havia também uma casa descarnada, com os dentes negros das árvores que lhe saíam da boca e onde estava preso, numa das paredes que ainda se aguentava de pé, um pequeno retrato de um rapaz abraçado a um porco. O rapaz estava mais sujo do que o porco, mas ambos estavam igualmente felizes. Esse rapaz nunca esmolou por comida, sempre trabalhou ou matou passarinhos para fritar e acompanhar com a água de unto que lhe dava a volta aos instestinos do paladar. Havia dias em que esse rapaz queria matar a tia para onde era recambiado pela mãe quando esta se punha a beber, mas porque era ainda gente ia matar animais e depois punha-se a chorar no tombadilho daquilo que não era um navio mas uma pilha de madeira da serração. Havia dias em que tinha de ir de mãos dadas à asa de um panelão a ferver, com a mãe, para venderem a comida nas feiras e ele passava fome. Nessa aldeia, o sol não sabia ser neo-realista, nem coisissíma nenhuma que os homens inventaram as coisas serem, era só aquela esfera que ia de um lado ao outro da aldeia e fazia crer que a galáxia era coutada dali mesmo. De engraxar e coser sapatos foi um saltinho para ser escritor. O ofício e a oficina eram semelhantes: tinha tudo a ver com os curtumes, com os remendos que fazia para que as pessoas pudessem continuar a andar nas suas vidas um pouco menos descalças.

19.10.14

Ruído

A música-ruído é como o som do vento num microfone apontado ao mar. E o vento é uma coisa que nunca se sabe ao certo de que direcção vem nem para onde vai. Nunca se sabe ao certo o que é o vento. Vento planetário, vento solar, vento sideral. Deslocações de massas gasosas. Movimentos invisíveis que arrastam e que mudam os lugares, as massas, o tempo. É o som de todas as fábricas vistas lá de cima, como o som de todos os objectos estranhos e metálicos que fomos comprimindo na sucata do que acumulámos nas nossas mentes, do que fomos acumulando, vertendo em agulhas para o esquecimento. O ruído é a prova de que tudo o que passou por nós, tudo por onde passámos tem vida e, se lá formos mexer, é música ainda.

7.10.14

O todo e as suas partes (re-edição)

Plotino conta-nos que só um composto pode ser belo, e nunca uma coisa desprovida de partes; e somente um todo.
Por um lado, vivemos numa época de fragmentos e apreciamos a multiplicidade, embora sinta uma comum vontade em encontrar inteireza, pois só ela parece conferir uma certa paz de espírito, uma confiança de se ter alcançado uma ideia de música entre o ruído. Conviver durante muito tempo com fragmentos pode colapsar-nos em fiapos. Mesmo o mais corajoso dos homens precisa de um ponto de referência, de síntese, ainda que depois a abandone por vontade, por antítese.
Lutamos por um discernimento de um todo interpretativo, que não elimine a graduação de pormenor do olhar - embora ela se tenha de fixar em forma de memória e os olhos, por conseguinte, se tenham de esforçar por readquirir a sua visão natural, focada ou desfocada (neste caso se houver deslumbre e os olhos se puserem a brilhar).
A beleza dum agregado exige beleza nos pormenores, continua o filósofo. Queremos acreditar que chegaremos a um momento eurístico em que a descortinamos, como se nos tivéssemos afastado o suficiente para vermos o puzzle completo, mas não tanto que descuremos as particularidades que de lá já não são distinguíveis.
Chega-se a esta conclusão - e admito que pode ser provisória -, por exemplo, quando tentamos estudar um livro que se funda no poder do fragmento, no poder da abertura. Não é fácil fechar a porta quando se desconhece quem a voltará a abrir. Se nós mesmos, se outros, e se não encarcerámos a beleza das partes num todo que seja apenas a aparência do todo, ficando fechados para sempre na aparência.

1.10.14

Por causa de Trostky

Aquele que se recusa a adormecer nos braços da sua mais fiel metáfora,
disse Trostky a Bréton, 
aquele que espera que a noite não cesse mais
e siga como uma ave de arribação
à procura de lugares sem sol como Lagash
aquele que não tem lugar marcado no senáculo das imagens
e só se demora em confrontos com estranhos
aquele que não ama o dado
nem desama o que se deu
aquele que se guarda num quarto pequeno
e tens olhos de Peter Lorre
aquele que te pede dinheiro para o queimar na tua mão
aquele que a insónia consumiu e deseclipsou o coração
aquele que é de há muitos séculos atrás e à frente
que não sabe estar em lado nenhum
e canta no alto de uma matilha azul
e anda triste como uma lua mal parada
e não sabe viver embora viva para dizê-lo.