29.12.12

A que pais deve o amor a sua origem?

«Sócrates, «em nome da fada Diotima», sua «mestra nos conhecimentos pertencentes ao amor», no discurso do Banquete, atribuiu outra origem ao amor «de todo o grande mundo corpóreo criado». À pergunta de Sócrates: A que pais deve o amor a sua origem?, Diotima responde por um dos mais belos mitos, onde o génio de Platão fundiu, numa subtil harmonia, a imagem como raciocínio, a crença popular com o próprio pensamento.

Quando Vénus nasceu, relata Diotima, houve entre os deuses um festim, a que assistiu Poros (A abundância), filho de Métis (A prudência). Terminado o banquete, Pénia (A pobreza) aproxima-se e, quedando à porta, mendiga alguns restos. Entretanto, Poros, ébrio de néctar, abandona os companheiros e entrando no jardim de Júpiter acomete-o um sono profundo. Vendo-o, Pénia, arrastada pela penúria, imagina então conceber um filho de Poros e deitando-se-lhe junto em breve ficava a mãe do amor.

Com esta, compartilha o amor a pobreza e a permanente necessidade, e longe de ser belo e delicado, como se pensa geralmente, é magro, sujo, descalço, sem domicílio, dormindo à la belle étoile. Mas do pai, pelo contrário, herdou a ousadia, a perseverança, a curiosidade sempre viva, a sedução encantadora, o raciocínio capcioso. De sua natureza não é mortal nem imortal e no mesmo dia floresce cheio de vida, declina e extingue-se, para reviver ainda este ciclo. Tudo o que adquire lhe foge, oscilando constantemente da pobreza à riqueza, da riqueza à pobreza. A igual distância da sabedoria completa e da ignorância absoluta, o amor é filósofo, porque o que é a filosofia senão a aspiração incessante duma ciência imperfeita para a luz infinita? É ao nascimento que deve esta contraditória natureza.»



Joaquim de Carvalho

In «Leão Hebreu, Filósofo», Obra Completa de Joaquim de Carvalho – Filosofia e História da Filosofia (1992)