24.11.12

Noite

Aqui estou eu, à espera de um telefonema para apanhar um táxi e meter-me no álcool da noite, dos amigos, da serena confusão que preenche as ruas sinuosas do bairro. Existe uma proximidade tão grande entre a vontade de escrever e a vontade de sair. Escrever é sair à noite: é arrancar a gravata do dia. A única responsabilidade é a de tornar esse momento único, como única queremos sempre que seja a noite. 

Tenho vindo nestes últimos dias a acompanhar-me dos livros de Ana Teresa Pereira, em casa, na rua. A primeira vez que a li, foram logo três livros de enfiada, na altura em que era solteira e a cama era só para o prazer da leitura e dos sonhos que ela me trazia, contorcendo os pés dentro das meias grossas a cada inquietação mais forte. Lembro-me especialmente de Se nos encontrarmos de novo

Ofereceu-mos um rapaz que foi a paixão (para não colocar o diminutivo cínico que me levaria à sinceridade de dizer: a paixoneta) mais estranha que tive na minha vida. Com ele, por um triz que nunca mais conseguiria regressar aos poemas de Ruy Belo. Durante meses, tinha náuseas só de o ler, só de me aproximar da Margem da Alegria

Foi talvez a forma como o leu, sentado na borda de uma cama, entre um fato dentro de um saco de lavandaria e um lencinho de bolso, ou apenas coincidiu com o momento em que me apercebi que não o amava, mas depois de o ouvir senti-me fisicamente mal. Doente. Apetecia-me morrer, a ele apeteceu-lhe café e doces (acontecem estas malditas dessintonias nos piores momentos). 

E entre uma coisa e outra foi o nosso fim.

Seja como for, temos sempre de ser gratos àqueles que nos amaram ou que nos fingiram amar. Àqueles que nos trouxeram coisas para amar, como os livros de Ana Teresa Pereira.

Muitas vezes lembro-me deles não por coisas que às palavras digam respeito, mas por coisas pequenas, por gestos, por maneiras de vestir, como agora, em que me imagino com um casaco preto de capuz com forro caprino, ou melhor, a imitar o caprino, a caminhar sozinha pelas ruas até aparecer um táxi ou até desistir de procurar um e voltar para trás. Um casaco preto que não tenho. 

Ou como daquela vez em que fui a um teatro em Londres e pensei que uma personagem de um qualquer livro dela pudesse sentar-se a meu lado e me convidasse para um serão com queijos e vinhos. Ou como de uma outra vez em que vi o Vertigo e tudo na postura delicada de Kim Novak, a contemplar um quadro num museu, me fez lembrar o assombro que os quadros, sejam eles quais forem, sempre me provocaram. Em pequena o meu pai levava-me sempre a museus e deixava-me olhar... o tempo que fosse preciso, lendo sempre a meu pedido a descrição do objecto, do quadro. Com paciência, com orgulho até.

Acho que nunca deveríamos perder essa coisa que nos mantém atentos aos detalhes, a sensibilidade - algo de que o mundo de Ana Teresa Pereira é feito.